Billie Jean King ergueu o braço direito em triunfo. Dessa vez, contudo, o gesto não celebrava um ace ou um match point nas quadras, mas sim a conquista de um diploma universitário, exatos 65 anos após ela ter começado o curso. Aos 82 anos, a lenda do esporte e ícone da luta por igualdade recebeu seu bacharelado em História pela Cal State Los Angeles na última segunda-feira. Cruzando o palco do Shrine Auditorium com óculos rosa-choque e tênis azul-royal, King dividiu a cerimônia com cerca de 6.000 formandos da turma de 2026.

“Nunca é tarde demais. Não importa a sua idade ou as suas habilidades, se você quer algo, vai fundo e corre atrás”, cravou a ex-tenista após a cerimônia. A beca preta de King ganhou um toque especial: uma estola de formatura dourada, personalizada por um amigo. De um lado, suas iniciais acompanhavam a sigla G.O.A.T. (Melhor de Todos os Tempos); do outro, havia uma raquete de tênis multicolorida bordada.

O diploma tinha um peso emocional imenso. Há dois anos, King havia anunciado que voltaria aos estudos para terminar o curso na mesma universidade onde hoje repousa uma estátua de bronze em sua homenagem, em frente ao prédio de educação física. Sendo a primeira de sua família mais próxima a se formar no ensino superior, ela compartilhava essa mesma realidade com a grande maioria dos seus colegas de turma da Cal State LA, uma instituição com um corpo discente majoritariamente hispânico e latino.

Durante seu discurso para a multidão, ela trouxe à tona a dura realidade do passado, lembrando que ser uma estudante-atleta em 1961 não era sinônimo de ter uma bolsa de estudos. O suporte financeiro era praticamente inexistente para as mulheres daquela época, ao contrário do que acontecia com seus amigos Arthur Ashe e Stan Smith, que tinham bolsas integrais nas equipes masculinas da UCLA e da USC.

Em um momento de leveza, o choro alto de um bebê ecoou pelas varandas do auditório, interrompendo a fala de King. “Tá tão ruim assim?”, brincou a lenda, arrancando gargalhadas do público. Pouco depois, ela incendiou a plateia ao gritar “Sí se puede!” (Sim, você consegue!), sendo ovacionada. Acompanhada pelo mascote da faculdade e por estudantes-atletas, King ainda rebateu bolas de tênis autografadas para a arquibancada.

O abismo entre o cenário que King viveu em 1961 — quando o campus ficava a 8 quilômetros do centro e ela vencia seu primeiro de 20 títulos em Wimbledon recebendo apenas um vale-compras de 45 dólares — e a realidade bilionária do esporte atual é colossal. Hoje, um título de duplas em Wimbledon vale quase meio milhão de dólares. Naquela época, ela abandonou a faculdade para se tornar a número 1 do mundo, faturar 39 títulos de Grand Slam e cravar uma vitória histórica sobre Bobby Riggs na “Batalha dos Sexos” de 1973. O incômodo de não ter o diploma, porém, sempre foi uma pulga atrás da orelha. Ela fazia questão de corrigir qualquer biógrafo que afirmasse que ela era formada: “Eu sempre dizia: ‘Nunca diga que me formei, ainda não fiz por merecer'”.

O Reflexo Moderno: O Título Nacional da Texas A&M

Toda a luta de King pela profissionalização e pela expansão de oportunidades e prêmios em dinheiro pavimentou o caminho para o que o tênis universitário feminino é hoje: uma potência competitiva de alto nível. A materialização dessa evolução pôde ser vista no Campeonato de Tênis Feminino por Equipes da Divisão I (DI) da NCAA de 2026, disputado no complexo Dan Magill, em Athens, Geórgia.

Enquanto King celebrava sua graduação na Califórnia, no domingo, 17 de maio, a equipe da Texas A&M (Aggies) derrotava a universidade de Auburn (Tigers) por 4 a 1, faturando a coroa do tênis universitário americano. O título consagra a equipe do Texas com o segundo campeonato nacional nos últimos três anos, curando a ferida do vice-campeonato sofrido na temporada passada.

O torneio, estruturado em um formato de mata-mata com 64 equipes, é a prova viva de como o esporte feminino se expandiu e se profissionalizou nas universidades. A trajetória do campeonato de 2026, desde o sorteio das chaves no fim de abril até as finais emocionantes em maio, ilustra o nível técnico atual.

O Caminho para a Coroa no Torneio da NCAA de 2026:

Primeira Rodada e Segunda Rodada (1 a 3 de maio) As rodadas iniciais foram marcadas pela força das cabeças de chave avançando em seus confrontos. O torneio começou na sexta-feira, 1 de maio, com vitórias dominantes, como Miami (FL) e South Carolina aplicando 4 a 0 sobre North Florida e Maryland, respectivamente. Stanford, Clemson e UCLA também garantiram suas vagas logo no início.

As favoritas não decepcionaram no fim de semana de abertura. As equipes ranqueadas no topo da tabela passaram sem grandes sustos:

  • No. 1 Georgia atropelou Alabama State e Charlotte por 4 a 0.

  • No. 2 Auburn varreu Bryant e Miami (FL) sem ceder pontos.

  • No. 4 Texas A&M, as futuras campeãs, eliminaram Quinnipiac (4-0) e Baylor (4-1).

  • Outras potências como Ohio State (No. 3), North Carolina (No. 5), Oklahoma (No. 6) e Texas (No. 9) também garantiram suas vitórias iniciais, mostrando a profundidade do talento distribuído pelo país.

Super Regionais (8 e 9 de maio) O nível de exigência subiu drasticamente na fase das Super Regionais, onde os confrontos começaram a afunilar os verdadeiros candidatos ao título:

  • Texas A&M (No. 4) dominou a Southern California (No. 13) por 5 a 1.

  • Georgia (No. 1) eliminou a UCLA por 4 a 1.

  • North Carolina (No. 5) bateu Michigan (No. 12) por 4 a 2.

  • NC State (No. 8) derrubou o Texas (No. 9) em um apertado 4 a 2.

  • Auburn (No. 2) passou por Duke (No. 15) por 4 a 2.

  • Pepperdine (No. 11) conseguiu uma vitória apertada contra Oklahoma (No. 8) por 4 a 3.

  • Ohio State (No. 3) e LSU (No. 10) também garantiram suas vagas nas quartas de final.

Reta Final em Athens, GA

  • Quartas de Final (15 de maio): Com transmissão nacional, a tensão atingiu o ápice. Auburn bateu LSU (4-1), Ohio State varreu Pepperdine (4-0), Georgia passou por NC State (4-1), e Texas A&M sobreviveu a um confronto duríssimo contra North Carolina, vencendo por 4 a 3 no limite.

  • Semifinais (16 de maio): Auburn desbancou Ohio State por 4 a 1, carimbando seu passaporte para a final. Do outro lado da chave, Texas A&M protagonizou a grande zebra do torneio ao eliminar a favorita e número 1 do país, Georgia, por 4 a 3 em um confronto épico.

  • A Grande Final (17 de maio): Texas A&M (No. 4) impôs seu ritmo contra Auburn (No. 2) e selou a vitória por 4 a 1.

No fim das contas, seja vendo as Aggies levantando o troféu em quadra ou observando Billie Jean King finalmente recebendo seu canudo no palco, o tênis feminino provou, em maio de 2026, que a sede por aprendizado e vitória não tem prazo de validade. Questionada se agora iria em busca de um mestrado, King sorriu, lembrando que tinha acabado de ver Shaquille O’Neal recebendo seu próprio título de mestre na televisão: “Eu simplesmente acho maravilhoso continuar aprendendo”.