Foto: Yan Cruz

Agostinho de Carvalho, 64, é coordenador do Projeto Bola Dentro, localizado nas quadras do Parque Villa-Lobos e que utiliza o tênis como forma de dar oportunidades a crianças e adolescentes da região do Ceagesp, na zona oeste de São Paulo.

A junção de um projeto social e o Tênis pode parecer estranho, já que o esporte tem a fama de ser elitizado, destinado apenas a pessoas de maior poder aquisitivo. Quanto a isso, Agostinho diz: “O tênis é um esporte de elite, mas quem o ensina no Brasil são os meninos pobres.”

Assim, o coordenador do projeto cita casos de sucesso, que souberam utilizar do esporte como ferramenta para ajudar em suas vidas, uma vez que o Bola Dentro capacita os alunos não só para se tornarem jogadores, mas também para trabalhar no meio, seja como boleiro, rebatedor, arbitro ou professor. “Tem menino que paga o aluguel da casa dele com o dinheiro dos torneios”, diz.

Foto: Yan Cruz
Foto: Yan Cruz

Veja a entrevista completa:

Como começou o projeto?

Eu comecei a dar aula na região do Morumbi em 1977. Lá tem uma comunidade, onde algumas crianças atiravam pedras na quadra enquanto eu dava aula para as senhoras. Era um problema difícil de resolver, se chamássemos a polícia não iria adiantar por serem crianças de 8, 9 anos. O diretor da academia ia até a diretora da escola (onde eles estudavam) mas não adiantava por eles fazerem isso fora da escola também.

Vendo isso, vi a oportunidade de começar um trabalho voluntário. Fiz uma visita à aula de Educação Física deles e identifiquei alguns dos garotos. Conversei com um deles – que deveria ter entre 11 e 12 anos – e expliquei para ele, disse que ele tinha um perfil de atleta, mas que o esporte dele não era aquele e eu tinha um melhor onde ele poderia começar a praticar e já ganhando dinheiro catando bolinha para mim na Academia. E aí foi indo, o garoto foi jogando e filiei ele na Federação. Hoje em dia ele é um empresário, continua jogando tênis, assim como o filho. Foi aí que vi que fiz algo de bom para ele. E não foi só esse garoto, fui aumentando o grupo. Os jogadores de pedra foram todos percebendo que gostavam de tênis.

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E eu nunca parei, dei sequência ao meu trabalho. Vários desses garotos se formaram como professores de tênis, ou outras atividades e estão bem, sempre agradecem ao trabalho que eu fiz. Um aluno experiente, de uns 70 anos, me falou que eu estava fazendo um benefício, um projeto, uma coisa que a sociedade deveria fazer.

Em 1983 eu comecei a trabalhar na arbitragem e percebi que tinha outro campo para eles e fui convidando cada vez mais garotos para trabalhar comigo, até que em 2003 nos perdemos o espaço depois que foi vendido o terreno. Fiquei meio chateado com aquilo até que uma mão de Deus se estendeu para mim me convidando para fazer um projeto no Parque Villa-Lobos, já que eu já prestava serviço para eles levando aquelas crianças que eu tinha para catar bolinhas no Torneio Internacional de Tênis que tinha por lá. Assim, surgiu a ideia deles de criar um projeto junto ao Governador Mario Covas, só que eles não tinham mão de obra e me convidaram para incorporar o meu projeto no deles. Continuo a 11 anos no projeto.

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O que é ser bola dentro?

Fizemos uma votação antes de escolher e decidimos por Bola Dentro, que para mim é aquele garoto que estuda e tem uma boa disciplina.

O tênis é, querendo ou não, um esporte caro de se praticar. Como o projeto se mantém?

No começo trabalhávamos com doações de 5 mil por mês que recebíamos do Governo via Nossa Caixa. Depois da venda da Nossa Caixa na troca de governo, ficamos sem dinheiro. Então recebemos uma dica e abrimos uma ONG para poder receber através da lei de incentivo ao esporte, conseguindo patrocínio de um banco por cinco anos. Infelizmente, ano passado perdemos o patrocínio e ficamos um ano trabalhando como voluntários, e a gente não desistiu e foi dando certo. Hoje temos o Itaú e a Rede nos ajudando.

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O tênis é um esporte elitizado?

Ele é elitizado porque foi criado dentro da elite, diziam que era um esporte de rei. Mas só rico pode jogar? O rico pode jogar porque ele pode pagar aula, tem um alto custo, material é caro. Mas também tem aulas e materiais baratos. Você pode encontrar uma camiseta de 15 ou de 200 reais. O tênis é um esporte de elite, mas quem o ensina no Brasil são os meninos pobres. Você pode perceber que todos os clubes de São Paulo tem uma favela do lado.

No projeto ensinamos a jogar e mostramos para os alunos que também é possível ganhar um dinheiro com isso. O menino pega bola em um torneio e leva para casa as vezes 50, 100 reais, dependendo do torneio. Um deles paga o aluguel da casa com o dinheiro dos torneios.

Eles começam como boleiros, porque assim eles aprendem muita coisa dentro de uma quadra já que assistem os melhores jogadores. Tenho alunos que já cataram pro [Roger] Federer, [Rafael] Nadal quando eles vieram para o Brasil. Isso para eles é uma felicidade enorme.

Projeto realizou curso de arbitragem em novembro

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O Bola Dentro também cria oportunidade de estudo para os alunos, para que eles possam se manter dentro do esporte. Tendo como professor Jorge Souza Jr, foi realizado em novembro a quarta edição do pré-curso de árbitro de linha e cadeira, que ajudará na preparação para o Curso Nacional, ministrado por Ricardo Reis, diretor do Departamento de Arbitragem da CBT  e Supervisor e Chefe de Juízes Gold Badge da ITF.

Lucas Matias, 16, tem o sonho de continuar no tênis, tendo como inspiração Jorge, que é ex-aluno do projeto e tem anos de experiência na arbitragem, que fez a final masculina dos Jogos Olímpicos do Rio nesse ano e por duas vezes chegou a chave principal de Wimbledon. “Ver onde ele chegou nos motiva a estudar para ser alguém no futuro”, disse.

Além deles, Lucas diz admira o trabalho Weverton Leão, também ex-aluno do projeto e White Badge, e é fã de Federer e Carlos Bernardes, considerado por muitos como um dos maiores juízes de cadeira do mundo.

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Matias participa do projeto há dois anos e agradeceu Agostinho pela oportunidade. “Além de evoluir meu jogo, aprendi a me comportar melhor socialmente e melhorei minhas notas na escola”, comentou.