Escolher o equipamento adequado, fazer a devida manutenção e conhecer as novas tecnologias é muito importante.

Ricardo Dipold – especialista em equipamentos e encordoador do Australian Open, Indian Wells, Brasil Open, Rio Open e Olimpíadas Rio 2016 – conta nesta entrevista sobre as evoluções das raquetes, como está o mercado brasileiro em relação ao internacional e também comenta sobre a sua nova coluna aqui no TENNIS INFO. Confira:

Ricardo, muito obrigado pela sua atenção e disponibilidade em conceder esta entrevista. Conte um pouco sobre sua atuação no tênis e como tudo começou. Qual foi a sua porta de entrada para trabalhar com esse esporte?

Entrei para o mundo do tênis já adulto, através da minha família. Minha esposa começou a jogar em Serra Negra e decidi entrar para este esporte como um hobby. Eu acredito que o sucesso vem quando você faz o que gosta, então comecei a adquirir mais conhecimento e em 2012, me formei no curso da USRSA – United States Racquet Stringers Association.

A minha ideia foi de montar uma loja e buscar especialização técnica sobre equipamentos para dar um atendimento de qualidade para os clientes. Em paralelo, fui convidado para trabalhar na sala de encordoamento do Gilette Federer Tour, em São Paulo, que foi o primeiro grande evento em que atuei, com tenistas do calibre de Federer, Tsonga Sharapova, Azarenka e etc. Se alguém me falasse no passado que eu trabalharia com estas lendas, eu não acreditaria.

Muito mais que uma profissão, uma paixão pelo esporte.
Muito mais que uma profissão, uma paixão pelo esporte

Como era o mercado profissional de equipamentos de tênis quando você começou? Após esses anos de muito trabalho, você acha que o mercado brasileiro evoluiu? Estamos muito atrás dos mercados internacionais de tênis?

Sim, realmente estamos atrás do mercado internacional. O equipamento produzido lá fora, chega aqui no Brasil. Na minha opinião, o problema está em como o público encara o mercado do tênis.

Fora do Brasil, a nossa profissão é tratada com muita seriedade. Todos os profissionais (treinadores, boleiros, encordoadores) tem um papel importante e são mais valorizados. Por exemplo, na Europa um encordoamento impecável é considerado como “arte”. A tecnologia é importante, mas é necessário um profissional competente para realizar o trabalho.

Ricardo Dipold e equipe no Brasil Open
Ricardo Dipold e equipe no Brasil Open

Na sua opinião, o mercado de encordoamento no Brasil está carente de profissionais experientes? Existe uma boa capacitação em cursos nacionais? Ou somente fora do país?

Sim, o mercado está carente de profissionais experientes. Hoje, infelizmente, o mercado brasileiro qualifica o profissional pela agilidade e não pela qualidade. O tempo influencia na excelência do trabalho, por isso, a exigência dos grande torneios é que seja realizado um bom encordoamento, com precisão e sem erros.

Eu acho que não falta oportunidade de capacitação aqui no Brasil, inclusive em São Paulo, onde acontecem cursos profissionais onde qualquer pessoa é bem-vinda. Um técnico especializado em raquetes precisa conhecer não somente sobre cordas, existem vários outros pontos importantes.

Reconhecimento pelo bom trabalho realizado no Australian Open 2016
Reconhecimento pelo bom trabalho realizado no Australian Open 2016

Como você enxerga o investimento nas categorias de base no circuito brasileiro? Falta mais estrutura (quadras e academias) e condição (equipamentos) para os jovens tenistas?

Acredito que falta um pouco de seriedade dos dirigentes nos investimentos. O tênis no Brasil é considerado como esporte de elite, mas não é bem assim. Podem surgir novos tenistas assim como Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro, mas os tenistas precisam ser persistentes. O auge da carreira de um tenista é acima dos 25 anos, acontece muito do tenista se desligar ou não gostar mais de jogar.

Como pai de jovem tenista, acho que uma coisa que pode atrapalhar é a pressão externa dos familiares. Um jovem competidor às vezes não tem a formação ideal aqui no Brasil. É muito importante não saturar a criança e perder um talento.

Nos conte um pouco sobre as novas tecnologias dos equipamentos para tênis. As grandes empresas lançam novas linhas de raquetes e outros materiais com frequência. Você acha que existe uma real necessidade de atualização de raquetes ou como diz o ditado, “panela velha é que faz comida boa”?

A cada dois anos a maioria das empresas lançam uma nova linha de raquetes. O tenista precisa encontrar um equipamento que se adeque ao seu estilo de jogo, mas vale a pena conhecer as novas tecnologias.

Toda raquete muda a cada 100, 200 encordoamentos. A rigidez pode ser alterada ao longo do tempo. Principalmente por causa da pressão que ela sofre ao ser encordoada. Quem “machuca” mais a raquete não é o potente forehand de um tenista e sim a máquina de encordoar. Se tenistas como Roger Federer e Rafael Nadal buscaram uma atualização no seu equipamento, acredito que todo tenista também precisa se atualizar.

Dipold, equipe de encordoadores e o campeão Murray
Dipold, equipe e o campeão Murray

Explique a diferença na raquete de um tenista profissional para um tenista amador ou “social”. Da mesma forma que os atletas mantêm as cordas em dia, é importante para qualquer tenista fazer o mesmo?

Sim. É muito importante, porém com uma frequência menor que de um tenista profissional, que gera muito mais desgaste nas cordas a cada jogo devido à potência dos golpes.

Recomendo para um tenista amador revisar seu equipamento a cada 30 horas de jogo, ou 10 semanas. Essa periodicidade depende muito da quantidade de spin que o tenista possui, pois com esse tipo de golpe, a corda se movimenta muito mais e o atrito gera uma alta temperatura que rompe a corda com mais facilidade.

Recentemente você atuou na equipe de encordoamento das Olimpíadas Rio 2016. Como foi essa experiência em receber os maiores atletas do mundo “em casa” e teve algum fato curioso que você poderia compartilhar?

Tinham apenas 10 vagas na equipe de encordoamento e tive o prazer de trabalhar nos jogos olímpicos do Rio 2016. A equipe responsável pelos equipamentos começou o trabalho no centro olímpico com antecedência, desde o evento teste.

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Que honra! Foto na quadra central da Olimpíada Rio 2016

Por exemplo, o Kei Nishikori precisou de 14 novas raquetes durante um único dia, sendo nove delas durante o jogo. O profissional de encordoamento precisa acompanhar os jogos do tenista, para saber a necessidade de substituição do equipamento.

Outro fato curioso, foi um abraço que recebi do Del Potro após a conquista da medalha de prata. Você é tratado como um membro da equipe deste profissional. O Murray chegou no Rio com título de Wimbledon, atual campeão olímpico e mesmo assim não perdeu a humildade com a equipe.

Djokovic na sala de encordoamento do Rio 2016
Djokovic na sala de encordoamento

Teve um momento muito legal quando o Djokovic entrou na sala de encordoamento com o celular na mão e fazendo uma video call com o filho dele. Ele (Novak) queria mostrar para a família como era o ambiente de trabalho e nós gostamos muito deste momento.

Quais foram os pontos altos e os maiores destaques de seu trabalho neste ano?

Sem dúvida as Olimpíadas Rio 2016 foi o evento mais importante da minha carreira. Ajudar e trabalhar ao lado de grandes tenistas, que sonham com o título desde crianças, é muito gratificante. Além de Indian Wells, que é um dos torneios que mais cresce no mundo.

Nos conte como esta a sua programação para 2017 e quais serão os principais eventos?

Fui convidado para trabalhar novamente no Australian Open, em Melbourne. Na sequência o Masters 1000 de Indian Wells, nos Estados Unidos, que ainda está em definição, e também provavelmente no Brasil Open, em São Paulo.

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Muito trabalho pela frente na próxima temporada

Já anunciamos para a galera que nos acompanha o lançamento de uma nova coluna semanal sobre equipamentos assinada por você. O que o público pode esperar dessa novidade?

Podem esperar bastante novidades e curiosidades sobre o mercado de equipamentos. Deixar a galera sintonizada nas diferenças entre raquetes, cordas, calçados, bolas e etc. O grande objetivo é apresentar informações para os tenistas identificarem os equipamentos ideais para cada necessidade. Vai ser bem interessante. Vale a pena ficar ligado!