Quando eu era pequeno, meu pai jogava futebol de salão. Depois de quebrar o braço começou a jogar tênis. Minha mãe jogava vôlei e levada pelo meu pai, foi para o tênis também. Os dois chegaram a jogar torneios até terceira classe em São Paulo. Em casa só se falava de tênis.

Eu amava futebol também, pegava as meias de tênis do meu pai, vestia duas meias para engrossar e parecer meião e ia para o campão na escolinha do Banespa. Também meu pai me colocava nas aulas de tênis que ele gostava, mas eu na época gostava mais do futebol e do Corinthians.

Fazia as aulas de tênis, e me lembro que numas férias escolares fui ficar um tempo com meus avós em Mairiporã e ia pescar com meu avô todos os dias. Meus pais chegaram no final de semana e meu pai louco para que eu jogasse tênis e nada. Meu avô e eu íamos pescar.

Dai meu pai tomou uma decisão, me tirou das aulas de tênis e me disse que se eu quisesse que fosse bater paredão. Sentindo falta do tênis, comecei a ficar no paredão por horas, sim por horas, por que desde pequeno quando gostava de algo me dedicava com todo coração. Cheguei a fazer ginastica olímpica e fui campeão paulista de saltos no pinheiros, mas não gostava tanto e parei. Tinha uns 7 anos mais ou menos e jogava tênis junto.

Acabou ficando só o tênis, tive aula no Banespa, também fora com o saudoso SR. Gil Freitas que jogava muito tênis. Na época ficava encantado em as vezes assistir o Tião da família dos Oliveira, treinar com outro primeira classe no clube, muito habilidoso. Com 10 anos e meu pai vendo minha dedicação e eu ganhando meus primeiros campeonatos paulistas, nos levou ao Paineiras, eu com 10 anos, Alexandre com 7 e Jaime com 5 anos. Daí a história do tênis foi se cristalizando em minha família.

Escrevi essa pequena introdução, por que meus pais sempre colocaram a situação de que se quero algo, teria que lutar e correr atrás. Mostravam o caminho, mas quem tinha que ter vontade e dedicação era eu. Tive sempre uma dedicação ferrenha no que me propunha e grande parte foi graças a educação dos meus pais de não passar a mão na minha cabeça. A responsabilidade de conversar com o técnico e escolher com quem treinava ou decisões a respeito, a palavra final era minha em diálogo com meu pai.

Lembro que já competindo, ganhando vários torneios com 12 anos, num determinado jogo bati a raquete no chão. Imediatamente escutei a voz do meu pai de fora da quadra, alto e claro, na próxima vez que batesse a raquete no chão, me tiraria da quadra.

Hoje a garotada da geração, tudo pode, pais falam pelos filhos mesmo com 14, 15, 16 anos e até mais. Sinto falta da época do assumir mais responsabilidade da garotada. Tanto eu, como outros amigos ex-jogadores contemporâneos que iam na mesma toada que eu, em torneios eram de uma disputa com atitude já profissional. Treinávamos muito forte, acabava o jogo, íamos treinar, ou íamos ao hotel descansar e preparar-se para o dia seguinte. Tínhamos muito sangue nos olhos.

Meus irmãos e eu tivemos uns poucos anos atrás um projeto competitivo, e o Alexandre e eu íamos a alguns torneios brasileiros acompanhando a garotada. Fiquei surpreso de não ver nenhum ex-jogador amigo meu de técnico acompanhando, e mais surpreso ainda com a atitude da garotada, que faziam tudo, menos se dedicar ao torneio. Nós sempre exigíamos da nossa garotada, mas a grande maioria só fazia arruaça e paquera.

Hoje quando existe algum programa de treinamento, os pais perguntam: tem psicólogo? nutricionista? fisioterapeuta? etc. Absolutamente nada contra esses profissionais, penso que se possível, sempre é um belo complemento. Mas penso que em primeiro lugar, seria observar a atitude do filho em relação a força de vontade, dedicação, disciplina, o quanto dirigi sua vida para o objetivo de jogar tênis. Se esta a fim de abdicar das festinhas para jogar tênis, e assim vai.

Aqui no Brasil, o clima , a vida é muito abundante em termos de opções para a garotada. Um juvenil, europeu, norte americano, onde a cultura esportiva é mais madura, o direcionamento do atleta tem muito mais foco. Uma vez competindo e se desenvolvendo o tênis é priorizado pelo atleta, e o atleta assumi muito mais a responsabilidade pela dedicação no todo.

Sem falar na Rússia, que existe uma escola que se chama Esparta, com uma modesta estrutura, onde são selecionados os atletas pelos técnicos e exigidos ao máximo nos treinos. É dada a oportunidade e a garotada agarra com todas as forças. O resultado é um monte de jogadores vindo de lá para o circuito.

A sensação que tenho, é que houve um grande buraco no tênis. Falta mais comprometimento dos atletas, disciplina. Talvez as gerações de pais amaciaram demais na educação? Muito passar a mão na cabeça? Os pais que tem os filhos no tênis, penso que vale a pena dar uma analisada. Talvez esse também seja um fator importante a ser visto.

Vale refletir! Um grande abraço e até a próxima.