Crédito: Erika Santalices/AFP

Interessante escutar os comentários dos tenistas que são espectadores do circuito de tênis durante todo ano. Falam dos jogadores, idolatrando os fenômenos e metendo o pau na rapaziada que esta lá suando, tentando conquistar seu lugar ao sol numa das profissões esportivas mais difíceis e competitivas do mundo. Normal aqui.

Seria interessante se eles pudessem acompanhar a rotina de treinos de um jogador que está tentando participar do circuito profissional e todas as dificuldades, para ver o que é bom para a tosse. Ainda mais no Brasil, que estamos anos luz atrasados na cultura esportiva em todos os sentidos e onde não existe espírito de união. Se o cara não é bom no momento, o cara é uma porcaria, se o cara é bom, nunca é o suficiente. Aqui não existem grandes projetos de massificação com real apoio financeiro para o desenvolvimento como na França, Inglaterra, Austrália, EUA, Rússia etc. Jogador que consegue sobressair-se aqui deveria ser considerado um herói.

Dentro do contexto comentários da galera, bastante tempo atrás, escutei inclusive pessoas que disseram que Roger Federer não tinha perfil de um jogador do circuito profissional e que não vingaria, isso quando ele começou a aparecer. Pois é!

Tive exemplos interessantes quando joguei: uma vez ganhei do suíço Jacob Hasek no quali de Roland Garros em 2 sets fáceis e depois, 3 anos mais tarde, aproximadamente, ele se tornaria um Top 10. Também outro exemplo um pouco antes, em satélites na Bulgária e Suíça, onde fui bem ganhando etapas, vi jogadores como Miroslav Mecir que chegou a #2 do mundo e Goran Ivanisevic, que foi campeão em Wimbledon, simplesmente não fazerem nada nos mesmos torneios. Alguns anos depois fizeram história no tênis.

Bem, o que quero dizer com tudo isso? E o que tem a ver com virada na carreira?

O tênis é um esporte extremamente complexo, não só na parte técnica, como física, psicológica, financeira, e muita, mas muita sorte mesmo ou alguns chamam de merecimento? As vezes ainda tenho dúvidas a respeito do merecimento, pois existe o fator lesões e outros que entram nesse contexto. Além de tudo ter de estar redondo, existe aquele torneio chave, onde o momento mágico no lugar certo e hora certa acontecem.

Podem ter certeza que a grande maioria do circuito profissional, não são fenômenos. Mas batalham muito, jogam muito tênis e muitos conseguem fazer uma bela carreira e pé de meia mantendo-se nas chaves dos principais torneios por alguns anos.

Um torneio que ele ganhe, uma grande vitória sobre algum jogador importante, uma oportunidade que lhe é dada, como por exemplo na última Copa Davis com o João Pedro Sorgi, pode ser um turning point (momento da virada) na sua carreira.

O fator mental, a confiança em si mesmo é o grande diferencial. Tem muitos jogadores que são bem arroz com feijão e conseguem fazer uma baita feijoada, por causa do fator mental. Um grande exemplo é o David Ferrer, que tem um poder mental incrível e está no circuito um tempão.

Hoje em dia, com o circuito profissional tão competitivo, os jogadores estão amadurecendo um pouco mais tarde e vários jogadores estão começando a ter resultados significativos depois dos 23 anos. Vejam o exemplo do Krajinovic. Também a ciência esportiva evoluiu muito e os jogadores estão conseguindo manter-se saudáveis e com carreiras mais longas.

Voltando ao Sorgi, sei que esse rapaz é um trabalhador muito sério, teve uma atuação corajosa, digna de um jogador de Copa Davis, salvando o Brasil num jogo decisivo na casa do adversário.  Passou por um teste de fogo e jogou bem agressivo e determinado na hora de mais pressão. Não foi contra um grande jogador, lógico, mas o momento e responsabilidade foram muito importantes. Torço para que esse jogo seja o turning point em sua vida e que ele tenha confiança no seu taco seguindo firme adiante.

Nessa renovação da equipe da Davis, vejo uma boa oportunidade para os poucos novos valores que se apresentam no momento. Penso que quando tivermos projetos que trabalhem com um grande número de crianças, principalmente as carentes, com estrutura digna de desenvolvimento, talvez tenhamos mais valores para dar oportunidades. Se temos tantos talentos e jogadores no futebol, por que não no tênis se for dada a chance?

Talvez tenhamos gratas surpresas.

Um abraço e até a próxima.