Foto: Divulgação Rafa Nadal

Depois de tantos anos vivendo o tênis, escuto muitas coisas engraçadas e muita desinformação. Muitas vezes preciso ficar quieto pois não quero fazer papel de vilão. Mas vamos lá, afinal essa coluna me dá a oportunidade de colocar um pouco da minha vivência e pontos de vista que talvez possa ajudar as pessoas no caminho desse esporte que amo muito.

O caminho para se chegar ao circuito profissional, passa em 95% das vezes por etapas que não tem como serem abortadas. Existem pouquíssimas exceções, mas a maioria dos casos não tem jeito. É um grande e duro aprendizado, como ir para a escola passando por todos os anos de estudo, faculdade, ser um dos melhores da classe sempre e depois de tudo isso, ter sucesso na profissão constantemente (só que mais difícil, rs).

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Não quero desanimar ninguém, não me entendam mal. Jogar tênis e competir é apaixonante em todos os níveis e para toda a vida. Só que para viver disso é outra história. Vamos começar.

Penso que é muito importante para os senhores pais, em primeiro lugar, apresentar os esportes aos seus filhos e perceber em qual deles a criança tem mais afinidade e goste. Depois disso, incentivá-los.

Por que estou começando esse papo bem cedo? Por que o jogador começa a formar-se desde pequeno. Bem, vamos direto ao ponto. Se a criança gostar e optar pelo tênis, o mais importante é que a criança jogue por prazer. Se não jogar por prazer, esquece.

Será necessário um treinador que o estimule, faça com que se interesse. Uma pessoa que a criança admire, respeite e escute muito. Para mim, a pessoa mais preparada e dedicada do Brasil e talvez um dos melhores do mundo para a formação de crianças é o Otaviano Alves dos Santos. Deixo aqui um grande abraço e um profundo agradecimento para você, Biano!

Ele fez parte da minha formação e de meus irmãos. Tivemos muita sorte dele ter feito parte das nossas vidas. Além do prazer de jogar, é de pequeno que se vai fortalecendo a mente, tendo disciplina, criando os alicerces de uma forte personalidade capaz de enfrentar derrotas, aprender com elas e seguir adiante para as conquistas.

Competir desde pequeno é fundamental para essas questões. O papel de corrigir, advertir, treinar, tem que ser do treinador. A função dos pais é de educadores quanto ao comportamento em quadra, na honestidade, na dedicação em fazer o seu melhor, consolar, motivar, ser amigo. Nunca na cobrança por vitórias, pois haverá muita derrota no caminho e a criança tem de contar com o apoio dos pais para levantar-se de novo e ir à luta.

Nesse caminho, a criança passará por competições estaduais, nacionais e internacionais. Sempre com muita dedicação, disciplina e aprimoramento, buscando a constante evolução. Isso acontece dos 9 até os 18 anos de idade. O tênis exige exclusividade e precisa ser priorizado. Não combina com noitadas e bebidas.

Principalmente nos dias de hoje, os profissionais cada vez mais se parecem com carros de fórmula 1. Tem muito jogador que viaja com staff e tudo mais. No entanto, par os Tops conseguirem jogar no limite, com certeza esses detalhes fazem a diferença. Alimentação, descanso, treinos diversos, tudo programado com cautela para um final satisfatório.

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Ainda sobre as competições das crianças e aborrecentes (rs), esses jovens para terem acesso ao circuito profissional, precisam de destaque no juvenil, onde nos seus 15, 16 anos, começam a mostrar a que vieram no mundo do tênis. Se for o caso, podem até receber convites (Wild Cards), para as chaves principais de torneios profissionais, começando assim a obter pontos na ATP e figurar no ranking mundial.

Outra possibilidade é começar tentando jogar pequenos torneios Futures, que acontecem em todo o mundo, buscando a conquista dos seus primeiros pontos. Daí segue uma escala que vai de Futures, Challengers de diferentes valores e pontuações, ATPs 250, 500, 1000 e depois os Grand Slams. Estou mostrando a escalada que um jogador de sucesso percorrerá.

A grande maioria fica estacionada nos Futures e poucos seguem adiante, num funil que vai se estreitando cada vez mais. Ser um ótimo juvenil não é sinônimo de sucesso no circuito profissional, mas ajuda muito. Como também existem poucas exceções de jogadores que não foram grandes juvenis e despertam com sucesso para o profissionalismo.

Toda essa história exige muito dinheiro também. As despesas vão de treinador, viagens, hotéis, alimentação e por aí vai. A não ser que seja um fenômeno jovem, que comece com grandes vitórias, haverá um período de amadurecimento até que as conquistas venham e isso implica em custos.

Hoje em dia está acontecendo uma coisa interessante, que vejo pelo avanço na parte da ciência esportiva. Vários jogadores estão amadurecendo um pouco mais tarde, nos seus 23, 24 anos e jogando num alto nível até depois dos 30 anos, o que antes não acontecia tanto. Um caminho que recomendo é ao invés de colocar em primeiro plano o circuito profissional de tênis, buscar conseguir uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, jogando tênis.

Isso tira a pressão de ter que vencer a todo custo no profissional; um plano A que pode se tornar um plano B ou vice-versa, se é que me entendem (rs). No tênis universitário norte-americano, joga-se em um nível de competição altíssimo e muitos jogadores saem de universidades formados para o circuito profissional.

Bom pessoal, esse foi um pequeno passeio pela formação de um jogador, caminhos e opções. Espero que curtam bastante. Um abraço e até a próxima!

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Eduardo Oncins
Como profissional participou de todos os Grand Slams, integrou a equipe da Copa Davis em 1982 e com 15 anos já tinha pontos na ATP. Além do tênis é faixa preta de Aikido e utiliza várias técnicas da arte marcial como ferramenta para o desenvolvimento de tenistas.